!NSPIRAÇÃO:ABRIL

Exigir ao bege a verdade sobre as cores. O que esconde o amarelo, porque ninguém simpatiza com ele?
Ou o verde alface o que terá em comum com o lilás? As formas suavizam-se e as cores pastel ganham o seu lugar com a chegada dos primeiros raios de sol. Uma mangueira azul dobrada no chão a contornar uma manequim de costas com calças largas à boca de sino. A imagem que fica dessa prisão infantil imaginária. O triângulo e não o círculo como figura perfeita. Não as bases o vértice do topo apontando para o futuro.

BLOOM-FLECTOR


Depois de uma carpintaria, de uma sala luxuriante no Palácio da Bolsa, foi numa miríade de espelhos instalada na Alfândega que decorreu a última sessão de florescimento dos jovens criadores do Portugal Fashion, não fosse o tema desta edição especial de aniversário ser ele mesmo reflector.

Detentor de sinergias ímpares nunca é demais relembrar que a moda vive precisamente dessa revitalização constante, e em Portugal penso que não existe um espaço mais coerente e espontâneo de contactar com esse experimentalismo na área do vestuário que o espaço Bloom. Porque não é apenas uma forma de mostrar roupas giras e vendáveis com um cariz mais concetual. Trata-se de coordenar o bom senso e a inovação, a viabilidade e o arrojo do conceito. Acrescente-se a isso o jogo de lasers psicadélicos e tome-se como exemplo os zippers néon de Teresa Abrunhosa, ou as imagens estampadas demasiado evocativas, as camisolas roxas com aberturas complexas de Atelier CTRL e não é necessário nenhum atalho no drapeado, quando os comandos são e estão sempre bem entregues.

Troquei umas palavras rápidas com dois dos elementos de K L A R que assumiram com segurança, que desenvolveram as ideias que já tinham explorado em coleções anteriores, mas que nesta lhes tinham dado um cunho mais viável, leve sem sair da sua zona de conforto. Aliás dificilmente sairão dela, demonstrei desde logo o meu agrado face a essa nova orientação que o projeto deles tomou nesta estação. Porque é fácil adaptar peças de temporadas passadas que não foram vendidas com um tecido adicional e coloca-las de novo num manequim. O que não me parece tão simples é ter atingido o apogeu do concetual, com uma mestria ora grotesca, ora sublime, neste caso, cabe ao público decidir, e retomar com um pano de fundo similar aligeirando certos detalhes para que se tornem comercialmente mais rentáveis e eficazes. Creio que poucos conseguem manter essa coerência e esse excesso de dedicação congénita à marca, ou em sentido lato, ao produto que geram. João Melo Costa é outro dos nomes mais graves e esdrúxulos deste jarro espelhado. Grave porque cria algo plenamente diferente do que os seus companheiros de agulhas e linhas estão a realizar neste momento. Esdrúxulo, pois é com grande esmero e afinco que constrói as suas peças, as quais causam um impacto avassalador mesmo quando penduradas num mero cabide.


Resta-me apenas desejar poder ser um dia um desses cabides…

João Melo Costa |Bloom| Palácio dos CTT

REFLE CTOR



Reflecti-me por três outfits distintos no segundo dia de desfiles, primeiro no Porto, parece que ter a chuva numa mão e as chaves na outra, me permite ir mais vezes e mais veloz a casa entre desfiles. Nunca tinha feito isso antes, há uma primeira vez para tudo. Detesto o cheiro a ginásios e balneários. Não o que eles representam, apenas o odor a suor me mete alguma confusão. Contudo valeu a pena esperar, senão desesperar pelo desfile de Luís Buchinho na Escola B/S Rodrigues de Freitas. Fazer desfiles em ginásios ou campos de basquetebol não é novidade alguma para qualquer fashion curioser, mas trocar uma biblioteca francesa, por um pavilhão de escola, tem muito que se lhe diga, o que só prova que uma vez mais, algumas roupas só precisam delas mesmas para se exibirem, a localização é quase arbitrária, embora a estética aliada a este espaço não lhe fosse totalmente alheia. As manequins mais severas arrastavam calças largas fluídas com uma leveza esmagadora. E em João Melo Costa a fragilidade dos rostos era atormentada pela fixidez dos cabelos. Os vestidos recortando-se obtusamente, enquanto as meias assinalavam o passo.

HOMEWEAR

A leveza das cortinas prende-me os movimentos no quarto, ou estou na cama, ou sentado no banco em forma de djembê em frente à secretária. Fico circunscrito às mini carpetes, às camisas alinhadas nas cruzetas metálicas, à ordem caótica que prezo e tento inexplicavelmente manter.
Espreito pela janela às vezes, e o que vejo é sempre o mesmo, a correria das pessoas, e o descanso dissimulado dos arrumadores de carros.
O tempo muda, a vontade de sair à rua aumenta. O uniforme é sempre igual, sapatilhas calças e uma camisa, e as chaves, sem o "porta..." para as proteger.