PONTOS SUSPENSIVOS

Bar suspenso | Casa da Música
Jardim Botânico
Busto Sophia de Mello Breyner Andresen
Café au Lait | Nos Em D'Bandada

Porquê nesses sonhos abandonados, gelados de framboesa e esperas calcinantes em filas fazem os três pontos dar sentido a uma semana que se esvai como um parágrafo esquecido. Um espaço bucólico no Porto a que ninguém vai, plantas que trepam e recobrem a poetisa, mas nunca escondem a poesia. Essa deve ter ficado entranhada nos arbustos, ou suspensa no ar flutuante da brisa que corre pelo jardim. O que a vista teme é a geometria do caos, a fluência indeterminada do futuro. Tal como o mar chega, e a música entra nos ouvidos sem pedir autorização. E o concerto perdido de HHY & The Macumbas (no Primavera Sound), numa obtusa e sufocante escuridão se vê agora num Plano B, um espaço mais sucinto e propenso a essa rufada de perversão, para uma performance incrível que bombeia os mais hipertensos e faz-nos perceber que o estado da música em Portugal é digno de um arrepio cardíaco. Para mim foi o expelir de energias que já havia previsto no post em que os dava a conhecer. O ciclo se fechou e mais tarde ou mais cedo quase tudo se concretizou. O tempo é que nem sempre é suficiente para viver e escrever. Suspende-se uma (acção) em detrimento da outra, e a conversa é sempre a mesma e pouca.

SEM TEMPO PARA VIVER



Isto não é mais um título sinistro de uma novela sensacionalista. É um hiato da memória, a memória que é curta, e acumulável em bibliotecas, acervos virtuais, e cérebros que podem eventualmente vir um dia a exceder em demasia as suas actuais capacidades. Funcionalidades extraordinárias que não fogem às tribulações do mercado. Especulações como os peritos preferem designar. Nessas desavenças o conhecimento é sempre o infinito culpado. Ele torce, mói, dilui, expande, e nada de compressas para evitar a morte. O destino é cruelmente realista. Nascemos, crescemos, morremos. Ou não será bem assim? As energias resistem a essa dicção fatalista e aparecem nos mais variados formatos e modos. Somos controlados por elas, ou controladores involuntários delas. No filme escapa uma fissura interessante, se o homem dominasse a sua existência a 100%, pudesse controlar e manobrar o seu destino com livre arbítrio, seguramente a crença divina, e a própria mácula de Deus, não teria motivo para continuar a existir. A iluminura da cultura ocidental se estatelaria virtualmente, chorando os dogmas de uma crença milenar. A morte seria ultrapassável, a imortalidade seria o princípio do fim? Nada e tudo, mas o tempo sobretudo. O tempo é o handicap inefável ao Homem. Talvez o nosso maior inimigo a seguir a nós próprios. Danos irreversíveis se avizinham como já o Chefe índio Dan George adivinhava: "Drive a car, watch television, and your fingers will find it difficult to remember their skills." Gravam-se imensos dados digitalmente mas perdem-se manualmente grande parte das nossas habilidades enquanto seres humanos. Abdicamos delas para arranjarmos espaço para os bits.  O conhecimento ancestral já nem se equaciona nas nossas rotinas. Esse apenas fará parte do imaginário selecto dos labores dos membros mais antigos da família. Lucy, o filme é intrigante porque permite questionar justamente e SE "tudo isso fosse de facto verdade?" e SE "o fiasco maior da humanidade fosse a impossibilidade de usar a sua cabeça em toda a sua potencialidade?"

!NSPIRAÇÃO:SETEMBRO

O que não dizer sobre Setembro. Cerrar as têmporas por um momento. E pedir licença para pestanejar. Não pensar. Deslizar os dedos no teclado como num corrupio na NOS em D'Bandada. Levar a ler o virtualismo. Fechar a janela com a persiana incompleta observar a rua. As edições, os desfiles, os eventos, colocar de lado, intermitentes reticências. Pular do lado de fora, nunca saindo de dentro de casa. Ainda acolhido recolher-se no aconchego do umbigo moldado por acidente na parede. Trovejar em termos comportamentais indefinidos. Tal como indefinidamente colher plantas e introduzi-las em garrafas de vidro. Espalhá-las ordenadamente pelos lugares amenos. Decorar espectros inexpressivos, frases-feitas e viagens que o olhar deve fazer. Predicações alinhadas como as frinchas que se enfileiram e se misturam numa linha cintilante imaginária. Personagem que espreita no parapeito. Para o peito o alfinete que brilha no escuro. O cometa comandante de uma desordem invisível.

K IS K

K is the key!


Banco LA REDOUTE|Calças ZARA|Chinelos PRIMARK|T-Shirt KARL LAGERFELD

Novo apartamento, novo quarto, novo corte de cabelo, novos objectos, novos motivos de alegria, chaves de conforto e contentamento. A t-shirt do Karl Lagerfeld finalmente aparece num outfit, embora ainda não a tenha estreado socialmente, é tão especial requer um momento igualmente memorável. A chave que falo não é apenas o porta-chaves chique que a minha mana Chica me trouxe de Nova Iorque, onde guardo as chaves do novo apartamento no Porto, é também a chave infalível para o uniforme karlista, que requer preto pele e um apontamento extra, como umas luvas sem dedos, que também adquiri recentemente. Esse olhar para diante, deixar estalar o trinco da fechadura, abrir a porta à frescura do futuro. Foi tudo que quis retratar no post 590º.