DERRAPANDO NA CURVA




Ninguém faz mais moda de qualidade no Porto e do Porto para o Mundo, que Luis Buchinho

Desde as pedras da calçada ao litoral português, ao ginásio de uma escola preparatória, linhas travessas, grafismos a giz e cinza que são elevados estação após estação até ao limite, sem cair na repetição.

Silhuetas rectilíneas derrapando numa curva apertada, não se sabe bem onde começa nem onde acaba.

Cada passada é determinada, cronometrada, as peças futuristas e funcionais evoluem paulatinamente na construção dessa identidade destemida.

Sacos largos, luvas altas, óculos escuros o combo citadino com um travo a maresia. São como as linhas do horizonte no Terminal de Cruzeiros, uma constante obsessão de Buchinho.


Seguindo a sua pegada, a moda portuguesa vai caminhar urbana, irreverente e ousada.

BLOOM IN


[MARIA KOBROCK]


Bermudas H&M Botas FLY LONDON Calças JUST CAVALLI Camisola de gola alta ZARA Camisa EDUARDO AMORIM Óculos ZARA

[EDUARDO AMORIM]



Não deixa de ser curioso, o novo coordenador do Bloom ter também apelido de flor. Piadas à parte, nesta edição, tudo apareceu bem organizado, da música ao set, ao facto dos desfiles praticamente não terem sofrido atrasos. E os jovens criadores enveredando por diferentes caminhos lá vão desenhando o seu percurso, no mundo cada vez mais complexo da moda. Aprecio e valorizo o esforço de todos, mas obviamente que uns me saltam mais à vista que outros. Uma das coisas que mais gosto de ver em desfiles são peças ousadas mas usáveis. Peças originais nas quais observo potencial não só criativo mas lucrativo. Daí as minhas propostas preferidas terem sido as duas dos sapatinhos felpudos referidos. Por um lado o conceito forte e a inocência dos tecidos (Maria Kobrock) por outro o barroco elevado ao techno numa espécie de clássico rebuscado (Eduardo Amorim). Propostas tão distintas mas igualmente interessantes para mim, a suavidade de uma contrasta com a pujança da outra. E poderia continuar a estabelecer comparações. Mas prefiro adiantar-me a elogiar o coordenado meio desfiado de Amorphous ou o casaco aeroespacial de David Catalán, de resto a única imagem que partilhei nas redes sociais. Outra coisa que me desagrada muito, as pessoas precisarem de validar a sua existência, também me sinto vítima disso, mas algumas abusam, querem capturar tudo. Tudo que é demais cansa. Mas sim como já chegou a primavera este dia do Portugal Fashion 40, tinha tudo para ser um bom florescimento, que os restantes lhe sigam o exemplo.

SOFTINOS

Softinos Black Leather Sneakers

Estava à procura de umas sapatilhas pretas, simples, confortáveis, sem logos ou floreados decorativos. Rumei como habitual ao Outlet da Fly London, e descobri esta marca que existe desde 2007, promotora de uma linha de sapatos como o próprio nome indica, soft, trata-se de calçado para usar no quotidiano sóbrio e despojado sem nunca descurar o conforto. E mal experimentei na loja senti de imediato uma leveza instantânea ao caminhar, o tecido fino, também acaba por refrescar e acentuar ainda mais essa sensação. Uma escolha acertada tendo em conta aquilo que procurava. Ainda para mais Made in Portugal!

O EGO VOLÁTIL

Discrepâncias de uma realidade virtuosa


Se pudéssemos arremessar uma pedra e ela ao mergulhar nas águas gélidas de um rio, alguém do outro lado do mundo, sentisse como seu efeito um arrepio. Não é uma mensagem de texto, é uma pedra que cai, uma parte do eu que se descola para ir tocar numa parte de outro. Toda essa iluminura não parece grave, mas recria parabolicamente o contrassenso da nossa realidade. Pretende-se advogar bons costumes, bons rituais, boas vidas, boas camadas virtuosas que camuflam o putrefacto espectro que compõe o nosso sumarento Ego. Esse bicho agonizante, que só se deixa antever de quando em vez, quando nos revoltamos com uma fila de espera ou com uma conta excessiva de telecomunicações. Está tudo incluído no pacote, exceto a nossa capacidade de atuar ordeiramente. Por isso alguns cantam ao desafio, enquanto outros choram de dor, uns escandalizam pelo decote, outros pautam-se por uma revolução silenciosa. Aos mais introvertidos resta essa revoltosa, essa noção de que nem sempre é necessário gritar para sermos ouvidos, vale mais calar, do que expelir com raiva a nossa ira atribulada, que é desfeita no momento exato em que enterramos a cremalheira numa bola de Berlim. Julgamos dominar perfeitamente a capacidade de ingestão da crítica, de alfinetadas avulsas, mas congelamos sempre que somos achincalhados, o nosso ego entra em tamanha erupção e vira lava, não consegue expelir mais nada. É no mínimo curioso desejarmos fazer sempre mais e melhor, optar pelo sucesso quando na realidade, o que nos falta é a virtude, uma inclinação para andar alinhado na corda bamba, somos um retrato robô do rebanho, piramos quando o latifundiário muda de disposição, e não sabemos aguentar as fezes onde elas devem estar. Espalhamos egoisticamente cada pedaço escabroso da nossa vida, por aí além, numa sala de chat aleatória, na perícia inexperiente de repetir as mesmas senhas, nos gigas e gigas de informações que não conseguimos condensar o suficiente por ser tão volátil a nossa mente, a alma praticamente à deriva sem GPS. A implorar somente que ninguém tropece.