REFLE CTOR



Reflecti-me por três outfits distintos no segundo dia de desfiles, primeiro no Porto, parece que ter a chuva numa mão e as chaves na outra, me permite ir mais vezes e mais veloz a casa entre desfiles. Nunca tinha feito isso antes, há uma primeira vez para tudo. Detesto o cheiro a ginásios e balneários. Não o que eles representam, apenas o odor a suor me mete alguma confusão. Contudo valeu a pena esperar, senão desesperar pelo desfile de Luís Buchinho na Escola B/S Rodrigues de Freitas. Fazer desfiles em ginásios ou campos de basquetebol não é novidade alguma para qualquer fashion curioser, mas trocar uma biblioteca francesa, por um pavilhão de escola, tem muito que se lhe diga, o que só prova que uma vez mais, algumas roupas só precisam delas mesmas para se exibirem, a localização é quase arbitrária, embora a estética aliada a este espaço não lhe fosse totalmente alheia. As manequins mais severas arrastavam calças largas fluídas com uma leveza esmagadora. E em João Melo Costa a fragilidade dos rostos era atormentada pela fixidez dos cabelos. Os vestidos recortando-se obtusamente, enquanto as meias assinalavam o passo.

HOMEWEAR

A leveza das cortinas prende-me os movimentos no quarto, ou estou na cama, ou sentado no banco em forma de djembê em frente à secretária. Fico circunscrito às mini carpetes, às camisas alinhadas nas cruzetas metálicas, à ordem caótica que prezo e tento inexplicavelmente manter.
Espreito pela janela às vezes, e o que vejo é sempre o mesmo, a correria das pessoas, e o descanso dissimulado dos arrumadores de carros.
O tempo muda, a vontade de sair à rua aumenta. O uniforme é sempre igual, sapatilhas calças e uma camisa, e as chaves, sem o "porta..." para as proteger.

DIA DE AZAR PSICADÉLICO

Ontem à noite numa azáfama de passeios, comboios e escadarias entrei no GNRation pela primeira vez.
Um espaço tecnicamente viável e apelativo pelos seus contornos orgânicos e futuristas. Não foi de língua de fora que fiquei propositadamente perto da saída. Os jogos de luzes, as vídeo projeções desarticuladas e mirabolantes reinaram durante a performance de Panda Bear, o músico dos Animal Collective que escolheu a capital portuguesa como sua nova morada, e Bracara Augusta, como a capital do norte a receber a apresentação do seu novo álbum.
Acho que fiquei chocado pelo mostruário de imagens, mais do que pelo vocalista, parecia que tudo estava prensado entre o tecto e o chão, as pessoas eram meros escaravelhos cegos pelas luzes  tal como a canção "blinded by lights". Se calhar a minha fasquia estava algures a roçar a estratosfera. Mais interessante de tudo, haviam pessoas desesperadas à entrada com cartazes onde se lia em letras garrafais:"COMPRO BILHETE". Não imaginava que fosse assim tão escutado esse género de música. Entrai numa sala de pânico e escutai um carrossel de decibéis acima do limiar suposto com muitas musas giratórias plasmadas a gosto. Esse exercício é como fugir antes do encore, para não perder o último comboio. É ficar inebriado pelos passos pesados blindados pela centrifugação das manchas de cor. Um êxtase que para mim não foi azarento, mas porventura poderia ter sido muito mais expansivo e diversificado do que barulhento.

Imagem via Instagram

!NSPIRAÇÃO:MARÇO

O infinito de odiar, ou apenas o ato de desviar o olhar e condensar nessa ruptura a toxicidade dos objectos das pessoas. Agrilhoar antes atrasar que adiar. Do mito das luvas altas à necessidade da mão molhar. De não coalhar a cabeça com as águas de Março. O berço, o regaço, o caminho que percalço nas linhas de ferro deslizantes. Essa roda viva que trai-me com a rotina. Esses búzios com sonoridades psicadélicas.
A informação que escassa til passa.