NEON BLESS


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Existem certas alturas em que o monocromatismo se revela um lugar comum, para experimentos. Assim sendo a cor ganha algum relevo, quando a maioria recorre a essa dicotomia cromática para levar avante as suas peças. Porque não cinza e verde, o acre e o doce numa recusa completa aos padrões convencionais. Aliando essas tonalidades a uma construção escultural, ora leve, ora pesada, mostrando algumas linhas, algumas curvas do corpo. Parece ter sido a receita idónea de Eduardo Amorim, que após ter ganhado o concurso do Bloom recebeu um convite para apresentar durante duas edições do Portugal Fashion, as suas coleções. Uma rigidez sensual, como se de uma banda desenhada neo-romântica futurista se tratasse. As roupas não são excessivamente experimentais, nem tampouco demasiado comerciais, são especiais, uma simbiose perfeita entre costura e hightech, com uma pontada de romance oscilante, como o texto introdutório sumariamente elucidava. Estou deveras expectante quando ao futuro deste jovem criador...

ESPALHAR FORMAS


Fadas misteriosas em amarelo. Garotas reais com fatos de treino perfurados. Rapazes com tubos de ensaio pendurados. Jamais imaginaria formas tão peculiares no segundo dia de Portugal Fashion: Sprinkle já assim bem no coração do Porto. As artérias mais jovens do Portugal Fashion reverberam o seu talento de uma forma entusiasmante. Não é que estejam muito aquém do consultório de tendências globais, muito pelo contrário, sente-se algo viajado, senão quando tipicamente cosmopolita, se tal junção é deveras possível. Um manto de visibilidade que suprime as dificuldades das marcas mais tenras vingarem no mercado global. A ideia fixa é exportar, vender para fora. Inovar sem causar desconforto. Pano para mangas, fechos abertos e sapatilhas em pele de cobra albina, um redoma às escamas e aos padrões mais gráficos. Vejamos as formas e os feitios que nos reservam os próximo capítulos...

BED THESIS





O meu aparente desaparecimento deve-se a uma inusitada afinação de espaço, tempo e leituras.
Tudo que se acrescenta, que se pendura, que se organiza na esperança de combater a monotonia do caos, sabendo ao mesmo tempo que dependerei deste para escrever pelo menos cinquenta páginas de tese.
A virtude de controlar a ambiência dos espaços fechados é que neles nós podemos dispor tudo como quisermos e nos convier, no exterior se o fizermos estamos sujeitos a ser chamados à atenção. Por isso a intimidade, tem essa espécie de mecânica sustentável para conviver com o aborrecido da normalidade da vida quotidiana. Os excessos de uma coleção de óculos foram deixados de lado, para poupar em espaço e ganhar em harmonia. Os livros por seu turno já ascendem a uma escala quase estratósférica, algo que também tenho de aprender a controlar urgentemente. Esse impulso de folhear, de querer saber mais e mais, de não ligar para quem fica a olhar, de desejar superar os limites, está também conotado nos tons e nas peças que escolhi para o meu "novo" quarto. A ideia de um espaço extremamente confortável, uma montra de sonos, sonhos e realidades paralelas, com uma eficaz funcionalidade e uma leveza felpuda.

SEMI CAOS

Como descrever a pulsão frenética e a intensidade gerada maquinalmente para obter sons do caos, ou o caos sonoro. Que sonoridades são precisas para demolir os ouvidos numa tempestade, onde a arritmia cardíaca quase roça um explosivo quebramento. Que imagens maquiavélicas são suficientemente fortes para acompanhar essa melodia progressiva. Não há dúvida que nas sementes dos dias, não se escutam em qualquer lado este género de músicas, que é capaz de ampliar senão mesmo amplificar o nosso espectro de sons. Imaginem uma corda ínfima, agora pensem no que é esticar, esticar, até ela quase rebentar, abstratamente é claro, provavelmente foi isso que terá acontecido a grande parte dos ouvintes que não estavam ainda totalmente habituados a lidar com este tipo de experiência audiovisual. De uma ausência por doença de Karen Gwyer, rumamos a um universo basilar obscuro de @ C desembocando na pujança magistral de Roll the Dice, que superou e foi sem dúvida um dos nomes áureos, em direção aos infernos da noite. No segundo dia Patten, o tropicalismo lascivo, fez-se de imagens cambiantes de música para música, entrecortadas por aplausos. Os vocais abafados e algo etéreos quase eram insondáveis face à sua tumultuosa eletrónica. Thomas ar de rapaz de coro, seguramente deve ter brincado desde muito cedo com amplificadores, e bater tachos era sem dúvida a benévola atividade que a sua mãe lhe permitia. Foi um total desconcerto grotesco, aberrante porque levou muita gente a berrar de medo por dentro e a abandonar a sala, demonstrando que a música experimental é uma arte com uma índole perversa à qual poucos conseguem aceder. Digamos que existe uma barreira, um limiar da dor, tolerável para alguns, intolerável para muitos outros. Eu felizmente sempre fui muito insensível à dor. Demdike Stare, o nome quase orgásmico dos produtores, que levianamente plasmaram ninfas mirabolantes, e colocaram-nas a sobrevoar a sua música grosseira, bruta, com uma mácula, muito máscula diria. Tão precisos e sincronizados chegava até a arrepiar. O fim apoteótico e contido foi acompanhado de suspiros expansivos e não tão breves. No último dia tínhamos convite para ir até ao Japão. Sonhei acordar numa sala de pânico, versão computadores japoneses. Os insetos que se queimam na barra elétrica, e os gráficos que se complexificavam entre os dois monitores desta vez separados, para entre eles se encaixar o dito Ryoichi Kurokawa, que parecia um jogador exímio avançando de nível, e rebentando as escalas do irremediavelmente possível. A sensação de que a esfera se fecha, a experiência fica inalterável, agora basta clicar, e ler para recordar.