SEM TEMPO PARA VIVER



Isto não é mais um título sinistro de uma novela sensacionalista. É um hiato da memória, a memória que é curta, e acumulável em bibliotecas, acervos virtuais, e cérebros que podem eventualmente vir um dia a exceder em demasia as suas actuais capacidades. Funcionalidades extraordinárias que não fogem às tribulações do mercado. Especulações como os peritos preferem designar. Nessas desavenças o conhecimento é sempre o infinito culpado. Ele torce, mói, dilui, expande, e nada de compressas para evitar a morte. O destino é cruelmente realista. Nascemos, crescemos, morremos. Ou não será bem assim? As energias resistem a essa dicção fatalista e aparecem nos mais variados formatos e modos. Somos controlados por elas, ou controladores involuntários delas. No filme escapa uma fissura interessante, se o homem dominasse a sua existência a 100%, pudesse controlar e manobrar o seu destino com livre arbítrio, seguramente a crença divina, e a própria mácula de Deus, não teria motivo para continuar a existir. A iluminura da cultura ocidental se estatelaria virtualmente, chorando os dogmas de uma crença milenar. A morte seria ultrapassável, a imortalidade seria o princípio do fim? Nada e tudo, mas o tempo sobretudo. O tempo é o handicap inefável ao Homem. Talvez o nosso maior inimigo a seguir a nós próprios. Danos irreversíveis se avizinham como já o Chefe índio Dan George adivinhava: "Drive a car, watch television, and your fingers will find it difficult to remember their skills." Gravam-se imensos dados digitalmente mas perdem-se manualmente grande parte das nossas habilidades enquanto seres humanos. Abdicamos delas para arranjarmos espaço para os bits.  O conhecimento ancestral já nem se equaciona nas nossas rotinas. Esse apenas fará parte do imaginário selecto dos labores dos membros mais antigos da família. Lucy, o filme é intrigante porque permite questionar justamente e SE "tudo isso fosse de facto verdade?" e SE "o fiasco maior da humanidade fosse a impossibilidade de usar a sua cabeça em toda a sua potencialidade?"

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