SEMI CAOS

Como descrever a pulsão frenética e a intensidade gerada maquinalmente para obter sons do caos, ou o caos sonoro. Que sonoridades são precisas para demolir os ouvidos numa tempestade, onde a arritmia cardíaca quase roça um explosivo quebramento. Que imagens maquiavélicas são suficientemente fortes para acompanhar essa melodia progressiva. Não há dúvida que nas sementes dos dias, não se escutam em qualquer lado este género de músicas, que é capaz de ampliar senão mesmo amplificar o nosso espectro de sons. Imaginem uma corda ínfima, agora pensem no que é esticar, esticar, até ela quase rebentar, abstratamente é claro, provavelmente foi isso que terá acontecido a grande parte dos ouvintes que não estavam ainda totalmente habituados a lidar com este tipo de experiência audiovisual. De uma ausência por doença de Karen Gwyer, rumamos a um universo basilar obscuro de @ C desembocando na pujança magistral de Roll the Dice, que superou e foi sem dúvida um dos nomes áureos, em direção aos infernos da noite. No segundo dia Patten, o tropicalismo lascivo, fez-se de imagens cambiantes de música para música, entrecortadas por aplausos. Os vocais abafados e algo etéreos quase eram insondáveis face à sua tumultuosa eletrónica. Thomas ar de rapaz de coro, seguramente deve ter brincado desde muito cedo com amplificadores, e bater tachos era sem dúvida a benévola atividade que a sua mãe lhe permitia. Foi um total desconcerto grotesco, aberrante porque levou muita gente a berrar de medo por dentro e a abandonar a sala, demonstrando que a música experimental é uma arte com uma índole perversa à qual poucos conseguem aceder. Digamos que existe uma barreira, um limiar da dor, tolerável para alguns, intolerável para muitos outros. Eu felizmente sempre fui muito insensível à dor. Demdike Stare, o nome quase orgásmico dos produtores, que levianamente plasmaram ninfas mirabolantes, e colocaram-nas a sobrevoar a sua música grosseira, bruta, com uma mácula, muito máscula diria. Tão precisos e sincronizados chegava até a arrepiar. O fim apoteótico e contido foi acompanhado de suspiros expansivos e não tão breves. No último dia tínhamos convite para ir até ao Japão. Sonhei acordar numa sala de pânico, versão computadores japoneses. Os insetos que se queimam na barra elétrica, e os gráficos que se complexificavam entre os dois monitores desta vez separados, para entre eles se encaixar o dito Ryoichi Kurokawa, que parecia um jogador exímio avançando de nível, e rebentando as escalas do irremediavelmente possível. A sensação de que a esfera se fecha, a experiência fica inalterável, agora basta clicar, e ler para recordar.

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