O EGO VOLÁTIL

Discrepâncias de uma realidade virtuosa


Se pudéssemos arremessar uma pedra e ela ao mergulhar nas águas gélidas de um rio, alguém do outro lado do mundo, sentisse como seu efeito um arrepio. Não é uma mensagem de texto, é uma pedra que cai, uma parte do eu que se descola para ir tocar numa parte de outro. Toda essa iluminura não parece grave, mas recria parabolicamente o contrassenso da nossa realidade. Pretende-se advogar bons costumes, bons rituais, boas vidas, boas camadas virtuosas que camuflam o putrefacto espectro que compõe o nosso sumarento Ego. Esse bicho agonizante, que só se deixa antever de quando em vez, quando nos revoltamos com uma fila de espera ou com uma conta excessiva de telecomunicações. Está tudo incluído no pacote, exceto a nossa capacidade de atuar ordeiramente. Por isso alguns cantam ao desafio, enquanto outros choram de dor, uns escandalizam pelo decote, outros pautam-se por uma revolução silenciosa. Aos mais introvertidos resta essa revoltosa, essa noção de que nem sempre é necessário gritar para sermos ouvidos, vale mais calar, do que expelir com raiva a nossa ira atribulada, que é desfeita no momento exato em que enterramos a cremalheira numa bola de Berlim. Julgamos dominar perfeitamente a capacidade de ingestão da crítica, de alfinetadas avulsas, mas congelamos sempre que somos achincalhados, o nosso ego entra em tamanha erupção e vira lava, não consegue expelir mais nada. É no mínimo curioso desejarmos fazer sempre mais e melhor, optar pelo sucesso quando na realidade, o que nos falta é a virtude, uma inclinação para andar alinhado na corda bamba, somos um retrato robô do rebanho, piramos quando o latifundiário muda de disposição, e não sabemos aguentar as fezes onde elas devem estar. Espalhamos egoisticamente cada pedaço escabroso da nossa vida, por aí além, numa sala de chat aleatória, na perícia inexperiente de repetir as mesmas senhas, nos gigas e gigas de informações que não conseguimos condensar o suficiente por ser tão volátil a nossa mente, a alma praticamente à deriva sem GPS. A implorar somente que ninguém tropece.

Sem comentários:

Enviar um comentário